Discussão sobre o Discurso de Outrem, tendo por base o caso do assassinato do travesti em Campina Grande
Quando abordamos simbolismo é impossível fazê-lo se não tomarmos por referência base Pierre Bordieu com o seu livro Poder Simbólico, e quando tratamos do Discurso de outrem, como fazê-lo se Mikhail Bakhtin não for citado?
Para isso, nos propomos de uma maneira simples, analisar o discurso utilizado por três diferentes telejornais sobre o mesmo assunto: O assassinato de um travesti em Campina Grande-PB, na madrugada do dia 15 de abril de 2011 por volta das 04h:26min da manhã. As matérias foram exibidas no Bom Dia Brasil (Rede Globo), no Jornal do SBT (SBT) e no Itararé Notícias (Itararé/Cultura).
De início podemos utilizar Bakhtin (1997), quando o mesmo diz
A enunciação do narrador, tendo integrado na sua composição uma outra enunciação, elabora regras sintáticas, estilísticas e composicionais para assimilá-la parcialmente, para associá-la à sua própria unidade sintática, estilística e composicional, embora conservando, pelo menos sob uma forma rudimentar, a autonomia primitiva do discurso de outrem, sem que ele não poderia ser completamente compreendido ( BAKHTIN, p.145, 1997).
Ou seja, é inevitável que o discurso que foi colhido permaneça o mesmo quando for propagado, não quer dizer que seja editada a fala natural (podendo até ocorrer isso), mas sim o ordenamento em que a mesma foi imposta, ou melhor, no contexto em que ela for utilizada. Um bom exemplo também é o uso que estamos fazendo agora desse material, que dependendo de nossa visão é compreendido de uma determinada maneira, e sendo propagado, gerará em outros, diversas maneira de recepção.
Quando nos retemos as unidades sintáticas, estilísticas e composicionais de cada matéria é impossível dissociá-la da empresa que faz parte, e dos padrões e ideologias que as norteiam.
A matéria divulgada no Bom Dia Brasil, tem como título no canal de vídeos You Tube: Assassinato brutal de travesti em Campina Grande na Paraíba. O tempo de duração da reportagem foi de 2min:26s, fazendo link ao vivo, com exibição em cadeia nacional. Termos como bárbaro, brutal, crime hediondo, além de uma narração com tons de reprovação e apreensão caracterizaram a matéria.
A segunda foi do Itararé Notícias, tendo como título: CHOCANTE – Assassinos de travesti em Campina Grande-PB. A reportagem teve uma duração de 3min:23s, com exibição para Campina Grande e Região Circunvizinha, apresentou-se mais minuciosa com detalhes do fato, como amostragem de carro utilizado para o assassinato, as armas do crime, além do mais, colheram depoimentos das autoridades sobre o caso. Vale ressaltar que, a justificativa do crime pelo responsável ainda foi citada.
A terceira e última matéria foi exibida pelo Jornal do SBT, intitulada por: Morte de travesti em CG – Reportagem Lídia Duarte – TV Borborema SBT. O tempo destinado ao assunto foram de 1min:53s, e com transmissão em rede nacional. Nessa reportagem ficou clara a narração do fato, além de apresentarem informações como a justificativa do assassino pelo crime cometido, e a relação de parentesco de um participante do ato com o assassino.
Uma coisa que é peculiar é o tempo que variou de uma matéria para outra, além de uma inexatidão de informações, como que numa matéria o grau de parentesco de um dos envolvidos com o principal suspeito era de irmão, e em outra, era tio. Algo importante também, diz respeito à quantificação, trabalho com números, numa matéria o travesti foi morto com trinta facadas e em outra com trinta e duas facadas. Algo que gera no público uma desconfiança, e que no jornalismo acontece com freqüência (infelizmente).
Sendo assim percebemos mudanças de uma matéria para outra e concordamos com Bakhtin (1997) quando diz
A tendência analítica do discurso indireto manifesta-se principalmente pelo fato de que os elementos emocionais e afetivos do discurso não são literalmente transpostos ao discurso indireto, na medida em que não são expostos no conteúdo, mas nas formas de enunciação (BAKHTIN, p.159, 1997).
Fica claro que, está exatamente na maneira como fato é enunciado (contado) que a informação ganhará repercussão.
E por fim, é importante citar o verdadeiro objetivo na pesquisa em relação ao discurso de outrem, é como diz Bakhtin (1997) “(...) o objetivo verdadeiro da pesquisa deve ser justamente a interação dinâmica dessas duas dimensões, o discurso a transmitir e aquele que serve para transmiti-lo” p.148.
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